9 de julho de 2015

Conhecimento e Preços

Traduzido por Flávio Ghetti

por Donald J. Boudreux 
Se desejamos entender seu real funcionamento, devemos ver o sistema de preços como um mecanismo para comunicação de informação... O fato mais significativo a respeito deste sistema é a economia com a qual ele opera, ou quão pouco os indivíduos participantes precisam saber a fim de serem capazes de agir de modo correto. ~ Friedrich Hayek (1945). O Uso do Conhecimento na Sociedade, In Bruce Caldwell (ed,), The Market and Other Orders, XV, (Liberty Fund Library, 2014):100.

Imagine um quebra-cabeça de um bilhão de peças. Estas peças estão espalhadas aleatoriamente sobre um gramado de um milhão de milhas quadradas. Se alguém te atribuísse a tarefa de encontrar todas estas peças, como você faria?


Uma opção é procurar por cada uma das peças – um bilhão – por si mesmo. Se você escolher esta opção, você provavelmente morrerá antes de completar a tarefa. Mesmo que você vivesse por 95 anos e começasse a procurar ininterruptamente desde o momento de seu nascimento, você teria que encontrar uma peça a cada três segundos para encontrá-las antes de morrer.

Mas suponha que você consiga a ajuda de mil amigos para espalharem-se com você pelo gramado procurando pelas peças. A tarefa agora é muito mais fácil. Se cada um de vocês encontrar apenas uma peça a cada 30 segundos, você e seus amigos, juntos, completarão a tarefa em pouco menos de um ano.

É claro, esta tarefa pode ser ainda mais facilitada pela obtenção da ajuda de um milhão de pessoas ou, melhor ainda, 100 milhões de pessoas. Com 100 milhões de pessoas esquadrinhando o gramado por peças do quebra-cabeça, cada pessoa teria que encontrar uma média de 10 peças. E logo, se cada uma destes 100 milhões encontrar uma peça a cada 30 segundos, a tarefa será completada em meros 5 minutos.

A cooperação humana é poderosamente produtiva. Ainda neste exemplo, simplesmente coletar todas as peças do quebra-cabeça, por si só, não é uma realização muito valiosa. O quebra-cabeça deve, eventualmente, ser montado adequadamente para justificar o tempo e o esforço gastos na busca das peças espalhadas.

Pense em cada peça do quebra-cabeça como uma unidade de informação que é potencialmente útil para fazer a economia operar com sucesso. Uma peça pode conter a informação de que existem depósitos de bauxita em certos locais na Austrália. Outra peça pode ter a informação a respeito de quais engenheiros de minas estão especialmente qualificados para projetar uma operação de extração de bauxita.

Uma terceira peça é a informação a respeito de como melhor transportar a bauxita para processá-la na fábrica. Uma quarta peça é a informação de como produzir uma parte essencial para o motor do caminhão ou locomotiva que transportará a bauxita. Uma quinta peça é como projetar estradas e ferrovias nas quais o caminhão e a locomotiva irão trafegar.

Claramente, o número de peças com informações que deve ser encontrado e utilizado para que a bauxita se torne, digamos, a chapa de alumínio que forma o revestimento da impressora na qual você pode imprimir o texto que está lendo agora, é espantosamente grande. É um número muito maior que um mero bilhão de peças do quebra-cabeça de meu exemplo.

É absurdo esperar que qualquer pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, encontre todas as peças com informações necessárias à produção da chapa de alumínio (e para a produção de fuselagem de avião, para a produção de papel alumínio, para a produção de latas de refrigerantes... a lista é longa).

Não apenas é dificílimo simplesmente encontrar todas as muitas peças de informação para que se confie tal tarefa a um pequeno grupo de pessoas; mas, da mesma forma, é a tarefa de colocar estas peças juntas de modo que renda produtos finais utilizáveis.

Façamos agora uma modificação no exemplo para fazer do quebra-cabeça uma metáfora ainda melhor da realidade econômica. Suponha que, diferente dos quebra-cabeças normais, cada peça deste quebra-cabeça pode encaixar-se, ajustada e suavemente, a qualquer outra peça. Neste caso, simplesmente reunir todas as um bilhão de peças de modo que encaixá-las seja fácil. Mas observe que é possível criar um número incomensurável de cenas com estas peças.

O problema é, apenas um pequeno grupo destas cenas agradarão ao olho humano. A maioria das cenas será de nonsense visual. O desafio é colocar as peças juntas de modo que o resultado final seja uma cena reconhecível – digamos, um campo de girassóis ou uma movimentada rua de uma cidade. Apenas se a cena for reconhecível é que a montagem do quebra-cabeça terá valor.

Agora imagine-se sozinho diante de uma mesa gigantesca coberta com estas bilhões de peças de quebra-cabeça. Quais são as chances de que você sozinho possa juntar as peças de modo que o resultado final seja uma imagem visual coerente – um resultado final útil e valioso?

A resposta é “virtualmente zero”.

O número de maneiras de combinar estas um bilhão de peças é incomensurável – rivaliza com o número de átomos no universo. Então, mesmo que o número de cenas valiosas seja um milhão, isto ainda é apenas uma minúscula fração de um número gigantesco de maneiras possíveis que este quebra-cabeça pode ser montado. A vasta maioria das imagens que podem ser criadas pelo arranjo e rearranjo destas bilhões de peças será sem significado e, consequentemente, sem valor.

O tamanho e a complexidade do quebra-cabeça asseguram que atribuir a um planejador central (ou comitê de planejadores) a responsabilidade de montar o quebra-cabeça não funciona. Simplesmente não há meio pelo qual um planejador, encarando uma enorme pilha de peças de quebra-cabeça, possa antever quaisquer das figuras significativas que podem emergir uma vez que estas bilhões de peças sejam montadas.

Então o planejador deve descobrir quais são as imagens significativas possíveis. Ainda que ele possa fazer esta descoberta somente no processo de verdadeiramente montar o quebra-cabeça. Este quebra-cabeça não vem numa caixa cuja tampa retrata o resultado final.

É claro, o planejador não pode montar todas as um bilhão de peças de uma só vez. Em cada ponto no tempo os limites humanos da capacidade e atenção do planejador capacitam-no a levar em conta apenas, e para encaixá-las, uma pequena fração das milhões de peças.

Como o planejador pode saber, enquanto atua, se os grupos de peças que ele já montou serão ou não parte de uma imagem maior e mais significativa? As cinco milhões de peças até agora montadas, embora a imagem que elas retratam agora pareça sem sentido (digamos, uma massa verde), será destinada a tornar-se parte de uma imagem significativa (digamos, uma floresta) uma vez que tenham sido combinadas com outras 5 milhões ou 500 milhões de peças? Ou a montagem atual de cinco milhões de peças está destinada a permanecer sem significado ou impossível quando encaixadas com outras peças para ser parte de uma imagem significativa e agradável?

Como o planejador pode escolher racionalmente entre continuar com a montagem atual ou começar de novo? O melhor que ele pode fazer é escolher. Incapaz de ver o futuro, o planejador não tem meios de saber se a imagem retratada pelas cinco milhões de peças que foram montadas até agora se revelarão úteis ou inúteis quando estiverem combinadas com as 995.000.000 de peças restantes. Apesar de todo poderoso na decisão de onde vai cada peça, o planejador está voando às cegas.

O planejador enfrenta ainda uma segunda dificuldade insuperável. Mesmo que de algum modo ele pudesse antever desde o início a imagem final caso o quebra-cabeça seja montado corretamente, o planejador é incapaz de arranjar e rearranjar este enorme número de peças de modo que resulte nesta imagem final valiosa. São tantas peças no quebra-cabeça, e o número de modos pelos quais elas podem ser combinadas entre si tão grande, que o planejador será incapaz de realizar a montagem com sucesso.

Claramente, o planejamento é um modo terrível de montar o quebra-cabeça. Uma maneira muito melhor é deixar o quebra-cabeça montar-se.

Isto soa estranho. Mas, e se cada peça do quebra-cabeça viesse equipada com um monitor que fornecesse um feedback de como provavelmente esta conexão, em tal e tal ângulo com esta ou aquela peça, seria um passo no caminho de criar uma imagem maior, bela e significativa? E se, por exemplo, cada peça bipasse toda vez que se conectasse produtivamente com outra peça – isto é, toda vez que se conectasse a outra peça de maneira que contribua no sentido de formar como eventual resultado final uma imagem bonita? E se o volume de cada bipe fosse determinado por como provavelmente aquela conexão de duas peças ajudará na produção de um belo resultado geral? Quanto mais uma conexão particular esteja provavelmente trabalhando em direção a um resultado geral bem sucedido, mais alto o bipe.

Agora, finalmente, imagine cada uma destas milhões de peças tendo uma mente própria, tanto quanto a capacidade de mover-se por si. Cada peça ama ouvir estes bipes – e quanto mais alto o bipe, mais feliz a peça. Este quebra-cabeça – estranho quanto pareça – se agrupará numa configuração que resultará numa imagem bela e significativa. Ele se auto montará desta maneira sem que nenhuma das peças individuais planeje contribuir para este resultado.

Cada peça individual é motivada a conectar-se com outras peças apenas de maneiras que produzam os bipes mais altos. As oportunidades para conectar-se que não resultam em bipes serão evitadas a favor de oportunidades que produzam ao menos bipes leves. E oportunidades de conectar-se que produzam bipes leves serão rejeitadas em favor das oportunidades de conectar-se que produzam bipes mais altos.

Desde que a intensidade do bipe corresponda a maneiras de conectar-se que resultam numa imagem bela e valiosa, tal imagem será produzida sem que nenhuma pessoa (ou qualquer peça do quebra-cabeça) tenha tido a intenção de produzi-la. Este quebra-cabeça se “auto organizará” num belo todo, que é de longe maior que a soma das intenções das peças individuais.

É claro, nenhum quebra-cabeça do mundo real tem peças que se movam por si na busca por bipes. Mas transporte esta analogia das peças do quebra-cabeça sobre a economia do mundo real. Cada possuidor de propriedade privada tem incentivos para utilizar sua propriedade de maneira a produzir o maior retorno – os “bipes mais altos”, se preferir. O proprietário de terra pode conectar-se aos fabricantes de tratores e trabalhadores rurais para cultivar milho, ou com arquitetos e trabalhadores da construção civil para construir um prédio naquela propriedade. A opção que ele escolhe é a que grita mais alto para ele: “Escolha-me! Farei a maior contribuição a sua riqueza!”

Do mesmo modo, para o trabalhador individual que possui apenas sua própria capacidade de trabalho. Ele associará seu trabalho com o trabalho e ativos de outro detentor de propriedade privada que promete a ele o maior retorno sobre seu esforço de trabalho – isto é, quem oferecer a remuneração mais alta.

Com cada proprietário buscando apenas os maiores retornos no uso de sua propriedade privada, uma ordem econômica geral é criada a medida que cada agente dirige sua propriedade em direção àqueles usos que pagam os preços mais altos. Similarmente, os consumidores, buscando apenas obter a máxima satisfação nos gastos de sua renda, evitam fornecedores ineficientes (cujos preços relativos são mais altos) e prestigiam os fornecedores eficientes (cujos preços relativos são mais baixos). Os fornecedores ineficientes têm as seguintes alternativas: ou melhoram sua eficiência ou mudam para outra linha de produção. A eficiência é incrementada e um padrão complexo de uso dos recursos emerge espontaneamente, como disse Hayek.

Devido esse resultado espontâneo e não intencionado emergir de ações auto interessadas de possuidores de propriedade privada, cada um destes proprietários estará em melhor situação. Ninguém é forçado a fazer negócios com aqueles a quem prefira evitar, e – sendo livre para tirar proveito de quaisquer oportunidades existentes – cada pessoa escolhe aquelas oportunidades disponíveis para incrementar em maior grau seu quinhão na vida.

Um dos insights mais profundos de Hayek foi de que os sinais recebidos pelos possuidores de propriedade privada de como melhor utilizar sua propriedade vêm, sobretudo, na forma de preços – os preços de algumas relativamente aos preços de outras propriedades. Um trabalhador a quem a fábrica X ofereça 30 dólares a hora por seu trabalho e a fábrica Y ofereça 25 dólares, vai escolher trabalhar para a fábrica X devido à fábrica X pagar relativamente mais do que a fábrica Y. Similarmente, clientes que se propõem a pagar 50 dólares por unidade de produção fabricada terão maior probabilidade de adquiri-los do que clientes que se proponham a pagar 45 dólares. Responder aos preços deste modo não produz o paraíso na terra, mas encoraja milhões de pessoas a interagir pacificamente de maneiras que são mutuamente benéficas.

Nenhuma pessoa, conselho, comitê ou congresso, nenhum parlamento, planeja este resultado econômico global bem sucedido. E esta é uma bela imagem, uma imagem que mostra que podemos ter prosperidade econômica sem dar enormes poderes a oficiais do governo – oficiais que, sendo humanos, sempre serão tentados a abusar de tais poderes.

* Este artigo foi extraído do livro escrito especialmente para o projeto The Essential Hayek.

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Donald J. Boudreaux é professor de Economia na George Mason University e co-autor do blog CafeHayek.com

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